Aquilo que eles nos fazem, nem sempre é aquilo que nós queremos, nem aquilo que merecemos. A verdade é que nunca escolhemos de quem gostamos, e apesar de termos a hipótese escolhermos quem queremos a nosso lado, também nunca escolhemos quem devemos. E mais se diz, nem sempre gostar, ter o direito, e dever, é a mesma coisa. Temos tanto direito de amar alguém, como escolher quem amamos para viver connosco a nossa vida, lado a lado, frente a frente. Mas temos um dever, apenas um, que como quase nunca é visto e pensado, nunca é também aplicado. Dever de manter os pés assentes no mesmo sítio que a pessoa que amamos, dever de não voar mais que essa pessoa. Dever de amar e ser amado, mas nunca de amar e querer mais de quem amamos. Porque nem sempre quem amamos nos ama a nós, e é esse o nosso dever: saber distinguir quem nos ama.
Infelizmente, e já por várias vezes, eu, vocês, e outros, passamos por situações destas. Amamos até mais não, damos-lhes a conhecer, a nossa vida, os nossos amigos, a nossa família, os nossos irmãos pequeninos e os nossos avos velhinhos, a nossa casa, o nosso quarto, a nossa cama e maior que tudo isso, o nosso coração. No final de todas as histórias, ouvimo-nos uns aos outros, e perguntamos para quê, para quê se tudo foi em vão. E depois a nossa família pergunta-nos porquê, e os nossos irmãos perguntam onde eles estão, e os nossos avós, dizem que os adoravam, e a nossa cama ainda cheira a eles, na nossa casa o lugar na mesa fica vazio, e o nosso coração, esse, fica com eles.
E até os esquecermos definitivamente, achamos mil e uma vezes, que já recuperamos as nossas vidas, e mil e duas vezes nos apercebemos que afinal vamos cair no chão outra vez (na maioria das vezes porque eles ou já nos esqueceram, ou arranjaram outras pessoas com quem partilhar o que partilhavam connosco, ou pior, nos voltaram a tratar como se nunca tivéssemos entrado na vida deles).
Mas quando acontecem as mil e três vezes, já não dói tanto, já não faz nenhuma lágrima, já não provoca nem raiva, nem rancor, nem ódio. E é ai que realmente eles passam a não ser mais que uma história com princípio, meio e fim. O fim, que está presente desde o primeiro dia em que acordamos sem eles, sem que tenhamos dado por isso.
Talvez por isso valha a pena gostarmos tanto de nós antes de gostarmos de alguém. Isso ajudar-nos-á sempre que alguém se levantar ligeiramente pela manha, fechar a porta sem dizer adeus, e nunca mais voltar. Mesmo sem sequer nos lembrarmos, é isso que faz de nós quem somos. Nunca seriamos capazes de lhes fechar a porta, não sem os avisar. E na última pagina é isso que fica escrito: fizemos tudo o que podíamos, demos tudo o que tínhamos, a consciência está limpa.
Mas quando eles quiserem voltar, porque sentem saudades, ou porque precisam de nós, não vai haver uma última folha, vai haver a primeira, e a única. Aquela que apenas diz: Acabou.
E este, dedico a todos os que sentem o amor como eu o sinto. Sejam mulheres ou homens, Crianças ou avós.

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