No inicio do fim, não queremos nada nem ninguém. Tudo o que nos dizem inunda-nos o coração, tudo o que vimos inunda-nos os olhos. Tudo nos faz mal, e parece que ninguém nos entende. Achamos que não vão haver mais historias, e que tudo aquilo que prometemos a outrem não vamos repetir. Ou porque já não faz sentido, ou porque ninguém merece ouvir. Aliás, ninguém merece passar pelo fim de alguma coisa – não quando se fala de um fim pouco feliz. Com o decorrer das horas e dos dias, vamos nos apercebendo que algumas coisas sempre estiveram a nossa volta e que, durante aquele tempo, nos tínhamos esquecido do quão bom era olhar a volta e ver um mundo. Mundo esse que não está de mãos dadas connosco, mas que é tão ou mais perfeito. É o nosso mundo, aquele que é constituído por todas as coisas que, dê lá por onde der, nunca nos escapam das mãos – nem do coração. As boas acções ficam para quem as pratica e as outras vão sendo guardadas num lugar sem hipóteses de abertura. As poucas vezes que nos lembramos de quem nos desiludiu no inicio, meio e fim do fim é porque calha em conversa, ou porque passou por nós na rua. O rancor passa a superioridade e a saudade desaparece. É ai que aplicamos a velha máxima:
Só quem aguenta o nosso pior, merece o nosso melhor.
E num instante o que era um coração habituado a estar sozinho e a não depender de ninguém, abre a porta a outro mundo – mundo esse que nunca é igual, e que na maioria das vezes é melhor. Caso contrario não teria a capacidade de o abrir.
Não é automático, e quase nunca é á primeira, mas quando é, é a serio e com força.
É muito bom quando alguém nos abre o coração e entra por ali a dentro sem eira nem beira. É ainda melhor quando sentimos que passamos a vida inteira a espera dessa pessoa. Eu não sabia o que isso era, até à uns dias.
E não quero mais nada.


