" Nunca vemos o amor chegar; só o vemos a ir-se embora.
Estou numa estação de comboios, sentada num banco de pau, completamente só. Perdi o teu comboio e não quero apanhar nenhum outro. Está frio. Um vento seco e cortante faz com que me enconlha como uma bicho de conta.
Já não há sonho, já não há dádiva, os dias voltaram a ser cinzentos e tristes. Agora são todos iguais, sempre iguais. Trabalho, respiro, durmo e como o melhor que posso e sei, e tento esquecer-te. Deixei de falar de ti e de dizer o teu nome, deixei de o desenhar no espelho da casa de banho, quando o vapor inunda todas as superficies. Em vez disso, tenho o coração embaciado de dúvidas e o olhar desfocado pelo absurdo do teu silêncio continuado, o olhar de quem aprende a adaptar-se a uma luz desconhecida, a uma nova realidade.
Respeito o teu silêncio porque ainda me sobra uma ponta de orgulho, porque sempre te disse que uma força imensa me empurrava para ti mas começo a pensar que fui apenas um caso na tua vida. Um caso tórrido e clandestino, de pouca importância, que não significou nada. Será assim?
Espero que não. Sempre senti que a evolução do nosso amor, por mais impossivel que ele fosse, nos colocava acima disso. Pensei que a amizade e o respeito que sempre sentimos um pelo outro conseguiria levar-nos para outro lugar, ou pelo menos de outra forma, e isso entristece-me profundamente. Por mais que me esforce, é impossivel não me sentir decepcionada. E o pior é que se fizeste tudo isto porque achas que desta forma nos conseguiremos libertar um do outro, quando nos voltarmos a ver, tenho a certeza que ambos vamos sentir na pele que o tempo não sabe nada, o tempo não tem razão, porque ele não cura todos os males nem apaga todas as dores; apenas serve para domar os sentimentos mais fracos e fazer crescer os mais fortes. Por isso, e porque sei que não queremos guardar mágoa um ao outro, tento esquecer-te devagar, sem te odiar, porque o ódio também é uma forma desesperada de amar ainda e sempre aqueles que já não podemos ter ao nosso lado.
Não quero nem sei guardar rancor, nem remorso, nem raiva ou censura. Apenas uma dor que ficou no peito, que dói e que dura. O amor, que existe antes e depois de tudo, é uma forma poderosa e triste, porque fecha o coração a todos os outros prazeres que ele não pode dar.
A pouco e pouco, com enorme esforço e nenhuma vontade, tento não pensar mais em ti, refugiando-me na ideia de que é sempre muito mais interessante o que escrevemos sobre os homens que amamos do que aquilo que eles são na realidade.
Deixei de imaginar como te podia receber e mimar sempre que voltasses a casa, de me lembrar de lugares mágicos e escondidos, de restaurantes acolhedores e de miradouros românticos, deixei de sonhar com a tua presença na minha vida; o teu corpo sobre o meu, a tua mão a fechar a minha, os teus braços á minha volta, o teu olhar líquido e triste a nadar dentro do meu.
Tudo o que desejo agora é que me saias da pele como as folhas que caem no Outono, e com esse tapete sob os meus pés conseguir caminhar sem pisar as pedras."
Margarida Rebelo Pinto, in Diário da tua Ausência.

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